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De prata, com um leao de purpura, armado e lampassado de azul.


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embro da primeira vez que entrei numa Gráfica.
Fiquei intimidado e também fascinado com o barulho das
offsets e da tipografia que marcavam o ritmo de trabalho da Oficina.
Meu pai trabalhava numa gráfica, e graças a sua influência, alguns
desenhistas me iniciaram na profissão. Isto foi em 1982.
Durante vários anos trabalhei como desenhista na indústria gráfica.
Terminado meus estudos de história da arte, eu passei a integrar as
redações dos jornais como ilustrador, infografista e diretor de arte.
Durante todos estes anos de trabalho, eu tive a chance de encontrar
pessoas que desejavam verdadeiramente me ver aprender; me ver
desenvolver. Conhecer as cores, as proporções, os tipos de letras, os
papéis, ter o senso da qualidade, da paciência, e de tudo
o que nos torna verdadeiros profissionais.
Após ter adquirido muitas habilidades diferentes em minha
profissão, eu decidi me dedicar à caligrafia.
Esta atividade, e porque não dizer, esta arte que
envolve paciência, paixão, gosto e prazer. Foi com estes ingredientes
que eu comecei à produzir obras caligráficas
ou copiar documentos à mão em letras góticas, fraktur,
batardas, onciales ou insulares e a traçar com minhas plumas
tudo o que meu espírito imagina, sobre o papel.
Um exercício para a alma: interpretar um texto para o transcrever
como um objeto único, em diversas línguas.
É isto meu trabalho e eu o chamo de renouveau-scriptura.
E a mesma fascinação que eu senti ainda criança
diante das máquinas offsets, todo mundo pode encontrar
ainda hoje contemplando um trabalho caligráfico.
   
  

u pensei em começar esta parte falando unicamente de meu trabalho, estabelecendo por assim dizer, uma espécie de modo de uso ou grossário sobre ele, mas me pareceu mais sensato falar também de mim, de algumas das idéias que tenho do mundo, um pouco de meu percurso pessoal e profissional, e enfim, de meu trabalho, principalmente para que aqueles que desejam compreender minhas obras, possam também entender uma parte do conceito que inspira suas realizações.

Através dos séculos e em todas as civilizações, sem distinção de raça ou credo, escribas e copistas, silenciosos e atentivos, com mãos habéis, fiéis e pacientes, nos trasmitem com seus instrumentos de caligrafia: textos sagrados, fatos históricos, estórias de amor e de poesia, lendas inesquecíveis, tratados de paz, ciência e leis. Estes são os pilares do conhecimento humano, chaves de acesso ao entendimento para compreender nossa existência, para com um olhar atentivo diante de belos manuscritos do passado, possamos preparar o amanhã ou penetrar num mundo de sonhos... ainda que por instantes.

Foi com esse tipo de reflexão, que um dia, enquanto contemplava alguns destes manuscritos, anos atrás, decidí iniciar a viagem de retorno (e sem retorno) que realizo hoje, entre o real e o imaginário, através do conhecimento humano em todas as suas épocas; reescrevendo o que já foi escrito; retraçando idéias passadas mas marcantes para mim; repensando o já pensado; procurando ressentir em meu ser as mesmas sensações que os homens antes de mim sentiram, mesmo que o faça de maneira quase nostálgica. Cruzando textos inteiros, dezenas deles como se não houvesse fim, me enveredando por entre frases, às vezes sem um sentido imediato no instante, mas que após uma reflexão profunda, me deparo com uma sabedoria superior, me fazendo sentir como uma criança, sedenta por saber.

E como tenho minhas dúvidas acerca de tudo na vida, inclusive de mim mesmo e de até onde posso ir; como me considero curioso em entender o desconhecido para descobrir as outras versões de nossa existência; como sou interessado em conhecer os outros lados da mesma questão, os segredos desta vida; eu mergulho no passado através dos manuscritos, dos livros, procurando desvendar tudo através deles, todos os detalhes; recopiando as questões, os enigmas, as respostas; transcrevendo os pensamentos de outros mais audaciosos que eu. E como não sei se terei muitos anos de vida diante de mim - pois acredito que quando não pensamos na morte, somos irresponsáveis com a vida, deixando de realizar projetos dignos de nossa passagem neste planeta -, ocupo meus dias debruçado sobre os livros, com seus textos muitas vezes longos mas envolventes; sim, mergulhado sobre eles de maneira intensa, atentiva e interessada. Eu os fixo com meus olhos, sem pressa: contexto por contexto, linha por linha; eu me alimento pouco a pouco da sabedoria que eles me transmitem; eu os absorvo procurando assim sentir a essência destas épocas e de suas idéias; procurando aplicar alguns dos ensinamentos passados à realidade do meu hoje, de meu tempo. Ou com minha imaginação, transporto-me para lá, para após representar estas idéias através de minhas obras.

Todos estes textos, belos textos. Eu os procuro, fascinado, por todos os lugares onde eles ainda teem seu espaço, eu os admiro, os transcrevo com respeito, dando a eles o valor que posso dá-los. Eu os transcrevo: em francês, em latim, em português, em inglês, em... comparando-os; tentando nas reflexões me colocar ao lado de seus autores para entender sua elaboração; faço isso sem me preocupar com a hora, como se o tempo fosse minha habitação, meu único lugar de inspiração. Tudo isso me fascina, me envolve corpo inteiro, alma inteira, meu tempo inteiro.

E após terminado meu estudo, eu traço num papel o lugar onde receberá o texto escolhido, tão apreciado, a ser reproduzido por mim. Eu imagino o texto terminado, bem aconchegado, às vezes iluminado, futuramente admirado. E é assim que inicio sua transcrição em meio a gestos simples e comprometidos, por sobre o suporte, com minha pluma, na letra que eu imagino para ele. Mas que letra eu escolho à cada transcrição caligráfica? Escolho a letra que atende ao meu estado de espírito do momento, a letra certa, no tamanho certo; a letra que me fala à medida que minhas mãos recopiam palavras, frases inteiras. Numa atitude espiritual para mim.

Creio no espírito e no espiritual!

Minha criação é um estado de espírito!. Sim, meu trabalho é conceitual, espiritual, intelectual; às vezes sensual, poético, e na maioria das vezes pleno de contrastes. Insignificante para alguns e interessante para outros. Para mim no entanto, ele é meu eu, minha melhor forma de expressão, minha sensibilidade em erupção, minhas idéias em marcha. Ele é meu íntimo desnudado, a forma que procuro dar a vida, ao belo do feminino, à minhas poesias. O resto é meu estudo prático do mundo, sobre meus erros e acertos, sobre meu conhecimento adquirido através da cultura humana.

Os textos escritos fixam definitivamente as reflexões do homem, resultado da organização e associação das idéias que em si mesmas são um movimento puramente mental e desassociado da matéria.

Escrever é deixar uma marca de si mesmo.

Assim sendo, transcrevendo os textos, eu materializo as reflexões humanas. Eu dou um corpo físico e vísivel a elas. Eu lhes executo na ambição de fazê-las ultrapassar os limites do tempo, pois uma obra de arte é feita para durar.

Minhas obras são a cópia exata da reflexão do homem em todos os tempos, elas são apresentadas por mim em material durável e permanente, e constituem a preservação do conhecimento, assim como uma imagem ou quadro do discurso falado.

Mas se os textos não me pertencem, o que é meu em meu trabalho? O conceito. Mas que conceito?. Meu trabalho é a soma: do conhecimento - que não é meu e que é conhecido de todos, ou seja, os textos; mais os alfabetos - que são históricos e também conhecidos de todos; mais a interpretação pessoal e representaçao gráfica por mim estabelecida em suporte nobre e palpável. E é este o conceito, tendo como resultado uma visão única e original do conjunto vísivel, sensível e durável.

Ora, se a natureza do que existe e vive, é o jogo incessante de movimento e repouso, e a Arte com todas as suas disciplinas como a música, a dança, o teatro, a pintura, a escultura, o desenho, entre outras, se aplicam a captar e reproduzir o momento do movimento ou do repouso naturais da vida, pois o original será sempre o que nos inspira. Meu trabalho tem por objetivo imobilizar a reflexão, que considero como um repouso posterior ao movimento incessante e ondulatório das idéias dos grandes pensadores, ou seja do homem. O resultado é a materialização do espírito dos textos que considero como belos. Mas como sei que o belo é relativo diante da sensação, gosto, percepção e educação de cada um, à cada um sua livre e espontânea apreciação.

Meu lado filósofo me diz que o artista é um homem de todos os tempos; se situa em todas as épocas; é sensível a todas as mudanças em torno de sí e contempla toda a humanidade. Os textos que escolho e que utilizo em minhas obras me são testemunhas do que venho de afirmar, pois acredito que tudo muda e o homem se adapta. Ele reinvindica sua superioridade, sua habilidade a resolver problemas de ordem existencial, sua vocação a tudo dominar neste planeta, seu interesse a fazer parte da vida, a tornar agradável esta vida. Sua busca incessante pelo belo, este belo que, segundo eu, continua a ser relativo. A propósito, se Deus na Sua criação se teve por satisfeito do resultado em perceber que tudo era bom, e naturalmente belo; eu porém, como todo artista, observo que há do belo como resultado em meu trabalho, mas me sinto sempre insatisfeito do resultado e me interrogo à cada obra se este resultado é bom.

Esta reflexão me conduz a conclusão de que tudo o que conta na execução de uma obra de criação é fazer bem feito e que o resultado seja bom - apesar da busca incessante e sem fim pela perfeição - e que o belo é uma sensação que um criador deixa aos admiradores o privilégio da satisfação.

Eu sou um leitor compulsivo, um apaixonado por livros, pela história, por arte, por comunicação, por arqueologia, pelo espiritual... interessado em entender os fenômenos desta vida. E estes livros e disciplinas de que falo, fontes de aprendizagem para mim, me acompanham desde minha mais tenra idade: Luís Vaz de Camões, Fernando Veríssimo, José de Alencar, Cecília Meirelles, Clarice Lispector, Carlos Drummond de Andrade, Cláudio Abramo, Augusto Rodin, Wassily Kandinsky, Fernando Botero, Albert Einstein, Hypolite Taine, Olavo Bilac, René Huyghe, René Descartes, Antoine Marie Jean-Baptiste Roger de Saint-Exupéry, Miguel de Cervantes Saavedra, Jean-Jacques Rousseau, Charles de Secondat Montesquieu, Johann Wolfgang von Goethe, Georg Wilhelm Friedrich Hegel, Emmanuel Kant, Umberto Eco, Friedrich Nietzsche, Jean-Paul Sartre, Emile Zola, Jules Verne, Daniel De Foe, Franz Kafka, Leonardo Da Vinci, Giorgio Vasari, Albert Dürer, Johannes Gutemberg, Erasmo (Desiderius Erasmus Roterodamus), Miguel Angelo, Ticiano (Tiziano Vecellio), Gustavo Klimt, Peter Paul Rubens, Rembrandt Harmenszoon van Rijn, Johannes Vermeer, Rafael, Edward Johnston, Johannes Itten, John Kenneth Galbraith, Martin Luther King, a Biblia Sagrada (que lí integralmente durante meu curso de teologia numa escola teológica protestante), David Ben Gurion, Kundera, Ronsard, Martinho Lutero, São Jerônimo, Homero, Platão, Richard Shusterman, Arthur Miller, Tony Godfrey, Otto Rank, George Dupless, Phedre, Esope, Jacob e Wilhelm Grimm, Jean de la Fontaine... entre tantos outros, ajudaram-me a solidificar minha própria idéia da vida: natural e espiritual.

Tenho uma veneração especial por nossa escrita ocidental e pelas línguas que ela representa; veneração pela literatura e pela arte em todas as suas formas, pela ciência como complemento e não como o centro de todas as respostas, como tentam alguns fazer-nos isto acreditar em nossos dias.

Mas não aprendí e aprendo somente com os livros, aprendí e aprendo também com os demais. Falo daqueles que me querem bem, ou dos que se interessam por mim, ou dos mais velhos, de todos os que considero sábios - através de seus conselhos, pois acredito que conselho é bom, que deve ser dado e que deve ser aceito; com os dezenas de profissionais que conhecí e com os que conheço - que dividindo e trocando comigo seu saber, suas reflexões e suas experiências, contribuiram e contribuem no meu conhecimento. Eles me ajudaram a decidir o que queria realizar na vida de maneira prática e que me dão hoje autonomia, autoridade e determinação através das escolhas profissionais que faço para mim.

Aprendi a sonhar e a desejar vez por outra: um mundo de cultura elevada, mais humano, mais justo, mais inteligente, mais educado e menos formalista... mesmo que seja por instantes; mesmo quando não sou visto; mesmo me sentindo utópico e antiquado... ainda assim eu sonho e continuo a sonhar mesmo hoje!. Eu continuo a sonhar porque creio (citando Areano Suassuna) que a cultura tem anti-corpos.

E foi quando eu morei numa banlieue parisiense que aprendí - olhando os pássaros que se pousavam sobre minha janela: livres, satisfeitos, meus companheiros de cada dia, (uma de minhas fontes de inspiração) - a voar na imaginação, a ousar, a me aventurar no mais íntimo de mim mesmo buscando respostas; a estabelecer meu mundo próprio, a estruturar e reforçar meu pequeno atelier, tendo como companhia as palavras que ecoavam no ar daquela primavera; palavras plenas de força, que enchiam minha alma de propostas, de temas os mais variados, de reflexões, de teses às vezes até absurdas... E nestes instantes eu pensava por um momento naqueles pequenos seres lá fora, que com alegria e engenhosidade preparavam seus ninhos. Estes eram como momentos mágicos para mim; eu contemplava aquela cena diante de mim como algo perfeito, como algo de extraordinário, como um milagre da existência, sem saber se veria outra vez tal evento, tão fantástico, tão... genial!. E assim parava meu trabalho e saía um pouco por aí, caminhando pelas ruas de Colombes, de Paris, pelas praças afora, jardim do Luxembourg; tomando o RER, às vezes o trem da SNCF; o metrô parisiense; entrando nas filas e corredores humanos que se formam por todos os lugares (este sofrimento humano de sempre); na estação Saint Lazare, em Les Halles... com a mente distante, viajando nas idéias, na minha própria maneira de ver o mundo; passando despercebido em meio a massa, com este meu estado de espírito só meu.

Tenho um respeito especial pelo Livre-Arbítrio, principalmente o dos outros, e isto constitue para mim o primeiro de meus mandamentos na relação humana.

Todos nós temos direito ao amor, à sexualidade, ao pudor, à liberdade, à intimidade, ao respeito, a pensar o que quisermos de tudo e sobre tudo; a nos expressarmos livremente; a crermos no que queremos crer sem impedimentos, assim como a em nada crermos de tudo o que os outros nos apresenta; a nos sentirmos gente, a nos sentirmos desejados, a nosso valor próprio, a sermos vistos; a sermos conhecidos ou desconhecidos de todos; direito a nossa timidez; direito a expressar nosso mais íntimo desejo e a desejarmos o outro que amamos - de corpo e alma - com o melhor de nós, sem sofrermos julgamentos dos demais por causa de nossas escolhas. Sim, temos direito a expressarmos tudo o que se encontra em nosso íntimo; em nosso coração, em nosso entendimento. Direito a crermos em Deus, como direito a termos o livre arbítrio de seguir cada um seu caminho como bem se entende. Direito a sermos cidadãos; a defendermos, a dependermos e sermos protegidos pelo Estado; e direito a sermos homens livres nas idéias, pensando diferente dos outros e deste mesmo Estado, e podermos manisfestar isso abertamente sem nos sentirmos perseguidos; ou partirmos para outras terras, outras culturas, onde se defende as mesmas idéias que temos sobre tudo, sem encontrarmos barreiras em nossa viagem.

Me realizo no meu trabalho e exteriorizo sobre o suporte tudo o que meu estado de espírito fornece em meus momentos de inspiração. Minha caligrafia é meu instrumento de trabalho, e a ela consagro meu tempo, minha disciplina, meu conhecimento. Através dela dou forma a tudo que meu espírito entende por ideal e belo; faço isso dezenas de vezes se for preciso, num ritual incessante, pois isto me dá prazer, pois isto me realiza, é isto meu mundo.

Aprendí a caminhar sozinho, abrindo meu caminho com confiança: em Deus, em mim, no meu trabalho e no futuro. Eu trabalho duro! Todos os dias! Com disciplina e esperando no tempo, o resultado de meu trabalho. E quanto a este tempo, o tempo que ocupa meus dias, eu o uso caligrafiando, realizando minhas obras em meu atelier, descobrindo novos livros por livrarias afora: em Paris, em Strasbourg, em Bruxelas... tentando aprender, tentando entender as verdades dos outros, fazendo às vezes valer as minhas, pois quem é o que detém a verdade absoluta? E para continuar a falar sobre o que o penso, também creio num mundo onde forças se opõem, na diversidade cultural entre Oriente e Ocidente - onde as diferenças reinvidicam com legitimidade seus direitos.

Creio na atração do claro pelo escuro; na necessidade absoluta do contraste em tudo, pois esta vida é feita de contrastes; ela é plena de oposições necessárias.

Creio na diversidade de opiniões e que as diferenças são importantes para o equilíbrio de nossa sociedade e para sua sobrevivência. Da mesma forma que a noite e o dia são essenciais neste mundo onde o claro e escuro coabitam em equilíbrio. E por isso utilizo nos meus trabalhos o vermelho: de amores, paixões e vida, ou como representação de perda, lutas sangrentas e tragédias, em oposição e equilíbrio com o preto: como marca permanente das idéias humanas, ou vez por outra dos sentimentos e situações obscuras.

Pertenço a meu tempo e tento representar meu trabalho de forma atual, mas não sou preso a minha época como se estivesse numa bolha. Ao contrário, desbravo o passado antes de mim pelos corredores da história, destrinchando realidades que estão vivas e presentes ainda hoje em nosso meio; modelos e princípios: políticos, culturais e religiosos, que são humanos e universais; que fizeram e fazem parte das civilizações em todos os tempos, pois eles são como espelhos que refletem uma luz sobre nosso mundo atual, abrindo portas, ajudando-nos a regular nossa conduta, consolidando nossos valores, estruturando nossa sociedade; eternizando através de gerações: conceitos, idéias e fatos. Também tenho meus próprios conceitos e os exponho em meu trabalho com os materiais de que disponho hoje, e da forma mais apropriada e coerente a nosso tempo.

Tenho a crença do amor, desta força que eleva o homem ao mais alto nível de si mesmo, e assim como Don Quixote que se aventurou em busca de sua Dulcinéia com confiança no resultado, creio na ilusão de que a arte pode iluminar o mundo, penetrar o íntimo dos homens e manifestar o que há de mais belo em nós.

E como nossa linguagem há necessidade de ser exteriorizada e fixada; como os gritos de nossa alma assim como nossas idéias e paixões, precisam serem vistas e contempladas pelo mundo exterior para satisfação de nosso espírito; porque não trabalhar os signos que representam e atendem a este desejo humano normal e justo? É nisso o que consiste meu trabalho de pesquisa e transcrição das obras do passado: eu represento as idéias e aspirações da alma de seus autores através destes textos considerando o que nos foi transmitido.

Estes pequenos signos que mudam o contexto das idéias à cada vez que se faz necessário; que tocam o fundo de nós mesmos; juntando-se em grupos, pequenos, grandes, para formarem sílabas, palavras, frases; transformando-se em idiomas diferentes, mudando a linguagem, nos revelando segredos, nos orientando e nos dando direito a uma reflexão profunda de nossos desejos e da razão de sermos o que somos. Que dão sentido ao sentimento, ao grito, às lágrimas, ao pranto, à alegria, ao amor, ao desabafo, ao que é humano, ao que é legítimo em nós!.

Estas pequenas letras mágicas plenas de personalidade, individualismo e força de expressão, que tomando formas diferentes, sejam em Rústicas, Onciais, Carolinas, Góticas: primitivas, texturas, rotundas, fraktur, flamandas ou batardas, nos dão a sensação de vivermos um outro tempo, uma outra época; de capturar para nós a história, poder dela fazermos parte. Letras que me fascinam à cada assunto e onde procuro isolá-las para lhes dá um valor todo especial à sua individualidade. Eu poderia caligrafiá-las e representá-las até meu último suspiro de vida. Isto seria um prazer para mim!

E parar continuar a falar de minha caligrafia, deste veículo que me torna cúmplice da história, ela é a ferramenta que também utilizo para reafirmar minhas convicções e crenças; que emprego para exteriorizar e representar meus conceitos de forma visual e artística; com a ajuda de textos que eu tenho por excelentes. Ela é o recurso que disponho e utilizo para dividir com quem gosta de meu trabalho, tudo o que insisto em descrever.

Em meu trabalho caligráfico, as letras antigas não são simples alfabetos perdidos, coisa do passado; peças de museu; um mero assunto de paleógrafo. Elas têm o valor merecido, a importância que devem ter.

Com minha pluma em punho liberando delicadamente a tinta sobre o suporte, as palavras ressurgem uma-a-uma, lado-a-lado, deixando a imaginação me ser por limite, a fronteira que me diz onde parar. Mas logo terminado este trabalho, eu passo à um outro, pois tenho urgência no instante; neste instante completamente possuído pela inspiração que toma conta de mim. Tenho necessidade disso, é como respirar para mim. É um vicio que alimenta minha alma. Tenho necessidade da urgência do "agora", da inspiração que exige uma satisfação plena, um resultado; necessidade desta inspiração que compreende os gemidos mais íntimos de meu desejo de criar e se apodera de mim; que no silêncio mais intenso, onde todos dormem, ela me desperta e me apresenta uma outra versão da mesma idéia, uma outra concepção da forma a exteriorizar, ou uma simples observação para denunciar os erros por mim cometidos. Diria ainda que a caligrafia é o meio pelo qual alguns de meus desejos se exprimem, pois nela desabafo, expresso, proponho, exponho, indago, questiono, discordo, concordo... e dezenas de adjetivos misturados a verbos encheriam páginas inteiras para falar desta arte que tem um espaço especial em minha vida.

E para melhor ver uma de minhas obras caligráficas, é preciso se distanciar do presente, da mecanização contemporânea de nosso alfabeto. Evitar comparações. Ver o conjunto, o todo, como uma unidade inseparável, suas formas, vê-la com olhos sensíveis e despreocupados. É preciso se situar entre o passado e a conservação das idéias, nem sempre bem apreciadas por esta geração que ama tudo mudar; que tem obsessão pelo descartável. Para entender minhas obras, é preciso ter os mesmos valores que tem as pessoas que não tem o tempo por inimigo, ou a tradição por antiquada. É preciso amar as letras, a escrita, a pluma, a história, o tempo...

Pois, quando estou inspirado, desconheço meus limites e pleno de imaginação começo a rabiscar, a traçar com minha pluma, a explorar as cores para me realizar na criação. E assim dou cor e vida a meus conceitos. Utilizando as cores de que falo, em dosagens equilibradas e em harmonia entre elas, como uma bela roupa para o corpo vísivel do conteúdo por mim representado.

Cores que não me canso de estudar; com sua sensibilidade matemática, com suas sensações as mais diversas a nós comunicadas, com seu equilíbrio e oposição. Cores de suas infinitas combinações possíveis, de seus contrastes, agradáveis ou desagradáveis aos olhos. O estudo da cor e sua aplicação: seja na harmonia entre elas, ou como o uso de seus contrastes é para mim uma preocupação permanente. Um estudo que começou há muitos anos atrás em alguns cursos que participei sobre programação visual e que teve continuidade com meus estudos na Escola Superior de Artes e Insdústria Gráfica Estienne, em Paris; através de aparelhos de precisão, meses de aulas teóricas e práticas em laboratório ou sobre máquinas offset, e de aulas de física, que me ensinaram a importância da separação científica da luz. Graças à compreensão de sua constituição, composição e aplicação, eu posso controlar as cores para obter a qualidade esperada nas várias formas de impressão sobre os mais variados suportes.

Mas no meu trabalho eu não só invoco textos e cores; história e literatura; lendas e fatos; crenças e manisfestos... No meu trabalho tenho também um espaço reservado à representação do corpo feminino com suas curvas perfeitas e belas, como uma das formas de beleza do espírito humano. E porque eu não lembraria da mulher em meus trabalhos? Desse ser que muda o curso da história quando quer? Que com gestos tenros, delicados, plenos de graça e sedução, faz este mundo mais perfumado; da beleza algo essencial; dos homens embaixadores de paz ou conquistadores implacáveis. Represento elas em meus trabalhos com a mesma emoção que me causam os outros temas que me inspiram. Transcrevo sobre o suporte seus gestos encantadores, femininos e majestosos que só a elas foi dado o direito de possuir. Com a originalidade feminina que os outros seres são privados de ter. Mulheres sem rostos, sem condição social, sem nível de estudo, sem profissão...sem nada disso como algo de importante. Imaginárias, sensuais, belas para mim; gordas, magras, altas, baixas. Elas estão em minhas criações como representação do belo, como exteriorização do lado fascinante do espírito humano, como motor de inspiração para aqueles que desejam o amor, porque sem esta imagem de mulher, assim, consciente do poder que ela libera, não pode existir amor, poesia, desejo, conquista, encantamento, romance, sentido e razão na vida de um homem. É disso que falam também as poesias que escrevo e que as acompanham.

Meu amor pelas grandes idéias; pelos ideais; pela mulher; pela sensualidade; pelos contrastes; pelo que é manual; pelo intelecto; pelo ser humano; pelo que é legítimo e justo; pelas paixões ardentes; pela oposição positiva; por um mundo melhor. São estas as matérias-primas de onde extraío o conteúdo necessário para dar forma ao que pretendo mostrar através da representação conceitual que significa meu trabalho.

Este trabalho que faz parte de um renouveau que tem como ambiente, familías de letras manuais que homens como Albert Dürer, Jan Van den Velde e Edward Johnston, entre outros, souberam valorizar e imortalizar através da Caligrafia.

Esta arte que me é como um veículo por onde conduzo minhas idéias, por onde deixo fluir minha inspiração, meu interior às vezes inquieto, melancólico, esperançoso, contraditório, apaixonado, amante, firme, rigoroso, pecador, curioso, admirador. Por onde exprimo os meus sentimentos em relação a representação do mundo exterior em torno de mim, diante de mim. Esta arte por onde com a mão firme e livre dou a forma que quero a mulher ou assunto que contemplo e admiro; através do traço, através das cores.

E não poderia finalizar sem antes falar da pluma paciente que me serve, que me acompanha, que me obedeçe silenciosa e que não se cansa de tudo recomeçar à cada vez que meus olhos dizem não gostarem do resultado; nos movimentos os mais variados em busca da perfeição, de equilíbrio, da harmonia, da simetria, do que é correto, alinhado, coerente, bonito, ideal, conceitual, estético, profundo, sensível, legitímo!... Dando forma por onde ela passa, a tudo o que minha imaginação concebe; realizando letras, as mais belas para mim...

Eu pego a pluma, eu escolho um alfabeto, eu carrego a pluma de tinta, eu sinto a pluma, eu movimento a pluma, eu traço com a pluma, eu faço circulos com a pluma sobre o suporte, eu olho a espessura do traço da pluma, eu subo com a pluma, eu desço, eu traço à direita, eu traço à esquerda, eu paro, eu continuo, eu retorno em ritmos elegantes, eu imagino, eu me exprimo, eu danço balé através dos traços regulares, eu mudo a cor da tinta, de pluma, de letra, eu mudo de direção em traços irregulares, em traços contrários, eu sinto a música invisivel que a harmonia das letras criam, eu paro, eu relaxo o braço, eu leio novamente o texto que transcrevo, eu o analiso em silêncio, eu o compreendo, eu o contesto ou eu lhe dou meu acordo, eu o comparo com o texto caligrafiado, eu recomeço, eu pego a pluma, eu invento, eu crio, eu erro, eu paro, eu recomeço, eu paro, eu repouso outra vez a pluma, eu olho o espaço infinito do suporte, eu elevo meus olhos, eu contemplo o vazio em torno de mim, eu penso, eu imagino, eu me transponho a um outro mundo, eu retorno, eu calculo, eu decido, eu ouso... eu pego a pluma novamente, eu escolho um alfabeto, eu carrego a pluma de tinta, eu sinto a pluma, eu olho a espessura do traço da pluma, eu movimento a pluma, eu traço com a pluma...

Da Rústica à Batarda... para mim, sentir o movimento delicado e envolvente da pluma é um momento mágico, definitivo e único, onde posso expressar e reproduzir com meu toque pessoal, com liberdade, paixão e afeição, tudo aquilo que faz parte de minha criatividade, interpretação da vida, vontade, cultura, convicção e crença.

São essas algumas das muitas razões de meu trabalho; algumas das idéias que inspiram sua realização.

 
   
 
 
 
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